5º DOMINGO NA QUARESMA – Ezequiel
37.1-14
Brasília, 09 de março de 2008.
Querida Comunidade! Quando cheguei em Brasília – agosto do ano passado
– reparei que o terreno em frente ao nosso
templo estava tomado pela seca. Não havia
grama. Contudo, um membro – não lembro quem
– me disse: Olha, pastor, as raízes estão
aí, debaixo do solo. É só dar a primeira chuva,
que ela brota. Dito e feito. Quase se podia
ver a grama em crescimento. Não esqueci a
lição da natureza. Hoje – diariamente quando
chego ao gabinete pastoral – olho impressionado
o gramado verdinho diante de nossa igreja.
Inclusive, para quem não notou, no final do
ano, o GDF plantou novas árvores. Em meio
à seca, a morte, há vida. Ela brota.
Outro fato da minha caminhada pastoral. Certa vez, fui visitar uma senhora
em Panambi. Ela era doméstica. Trabalhava
duro para sustentar a casa. Seu marido, construtor,
era alcoólatra, não trazia nada para casa,
a não ser incomodo. Quando sóbrio, era excelente
pessoa, até vinha aos cultos vez por outra.
Quando estava bêbado, tornava-se agressivo
e batia na família. No meio da noite, tinha
por hábito tocar a família para a rua. Algumas
vezes, a polícia foi acionada. Algumas vezes,
ele dormiu no xilindró. Pelo bom senso, aconselhando,
sugeri a separação. Aquela vida era um deserto.
Era seca. Graças a Deus, ela não seguiu meu
conselho. Ela disse que iria perseverar em
oração (DMO). Foi uma mulher de oração, bom
exemplo. Ele mudou. O casal continua unido.
Em meio à seca, a crise familiar, a morte
certa, há sinal de vida.
Experiência semelhante teve o profeta Ezequiel. Essa história é sugerida
como texto de pregação para o domingo. Vamos
ler em Ez 37.1-14 (p.873).
Ezequiel era um sujeito de fé. Ele tinha intimidade com Deus. Ele era
um servo do Senhor, que atuava com sacerdote
e profeta. Ele estava junto ao povo que havia
sido levado ao cativeiro na Babilônia. Ele
foi chamado a alertar que o exílio (castigo)
era fruto da desobediência e idolatria (substituir
Deus por algo desse mundo). Mas, ao mesmo
tempo, Ezequiel precisava dizer que Deus não
abandonou seu povo. Havia esperança. Jerusalém
poderia ser reconstruída. Em meio ao deserto,
crise, isolamento, há possibilidade de vida.
Ezequiel teve uma visão que lhe trouxe esperança, que o incentivou a
pregar esperança ao povo. Deus o levou ao
vale. Lembrando o Sl 23: Vale da sombra da
morte! Ele teve uma visão aterrorizante. O
vale estava coberto de ossos, esqueletos humanos
sequíssimos. Certamente, ali no passado, havia
ocorrido uma grande batalha. Os mortos foram
tantos que os vivos, aqueles que escaparam,
não conseguiram enterrá-los. Quais lições
aprendemos com o texto:
Primeiramente, Deus pergunta ao profeta se há esperança, se aqueles mortos
podem voltar a viver. Ezequiel conhecia o
Senhor. Sabia que para Ele não há impossíveis.
Tu o sabes! Diz o profeta. Por isso, comunidade
luterana aqui em Brasília, não esqueça jamais:
Aquilo que aparentemente é impossível para
nós, tem um jeito. E, o mais importante: Podemos
participar nesse jeito de Deus. Ou seja, a
operação do milagre pode trazer crescimento
àqueles que estão envolvidos.
Em segundo lugar, Deus ordena: Ezequiel - profetiza! Traz a Palavra de
Deus aos mortos. Prega onde não existe esperança.
Derrama água viva sobre o deserto. Jesus disse
à Samaritana, que tinha uma vida vazia, árida:
Quem beber da água que eu lhe der será saciado
e sua vida se tornará uma fonte a jorrar para
a vida eterna. Em Jesus encontramos razão
para a vida e, ainda, podemos ajudar outros
a encontrarem a salvação.
Em terceiro lugar, a obediência traz seus frutos. Ezequiel podia ter
agido como o profeta Jonas, dizendo: Sim,
Senhor, vou falar! Mas, na hora “H”, escapando
pelo outro lado. Não. Ele ouve o Senhor, aceita
o desafio. Ele vai e prega. Penso comigo:
Quantas vezes percebemos que a proposta de
Jesus é certa, que a Palavra de Deus tem razão,
que o melhor caminho para minha vida e meus
filhos está na igreja, mas, mesmo assim, no
dia-a-dia continuo agindo por conta, sem a
direção do Senhor. Diz Jesus: Quem ouve a
Palavra e “não” pratica é semelhante ao homem
que constrói sua casa sobre a areia. Quando
vem o temporal, ela não agüenta, antes é derrubada.
Por isso, ouvir e praticar. Por isso, estar
em comunhão, aprender, crescer e viver o Evangelho.
A quarta lição: A transformação aconteceu de forma gradativa nos corpos:
nervos, músculos e pele. Entendo que a transformação
feita pelo Espírito Santo em nossa vida também
acontece de forma gradativa. Eu tomei minha
decisão consciente de seguir a Jesus a partir
do culto de Confirmação, baseado naquelas
verdades bíblicas que aprendi no Ensino Confirmatório.
Foi um momento especial e único em minha vida,
que muitos chamaram de “conversão”. Porém,
depois em minha caminhada de fé, reparei que
em muitas oportunidades no passado Deus já
estava operando em meu caráter. Diria até
que isso remota à data do batismo. Ali Deus
marcou e disse: É meu! Agora, devo dizer também
que ainda que não estou pronto. Muito tenho
que aprender. Muita transformação o Espírito
fará em mim. Estou, estamos numa caminhada.
Deus é o autor da transformação, da conversão,
que é contínua.
A última lição: Diz no final do verso 6 e início do verso 13: “Sabereis
que eu sou o Senhor”. Os milagres, as conversões
não existem para nossa própria glória. Ninguém
se engane, achando ser o máximo, o crentão.
É Deus quem traz a vida. É Deus que traz sentido.
Ele preenche nosso ser. Ele me mantém. Ele
mantém nossa comunidade. A Ele unicamente
seja a glória.
Concluo a pregação com a seguinte afirmação: Vivemos num mundo seco.
Existem muitos sinais de morte. Porém, há
esperança. Deus pode transformar. Confie n’Ele
e se coloque à sua disposição, como fez Ezequiel.
Pregue a Palavra de Deus com tua boca. Testemunhe
com teus gestos. Deixe o Espírito agir. Amém!
P. Euclécio Schieck