“EU QUERO FAZER PARTE
DO POVO DE DEUS” – A HISTÓRIA DE RUTE

Brasília, 21 de outubro de 2007.
Noêmia era uma mulher sofrida. Nasceu no
sertão nordestino. Desde pequena teve que
ajudar seus pais a sustentar a casa, capinando
na roça. A vida dura, desde pequena, todavia,
não lhe tirava a felicidade. Passou por algumas
privações, mas sempre teve o suficiente. Não
lhe faltava comida na mesa. Tinha roupa e
calçado, um teto sobre a cabeça e uma família
querida.
Recebeu também a maior herança que um pai
pode deixar ao filho: a educação cristã. Na
família era costume, todos os domingos ir
à igreja, todos os dias agradecer pela refeição,
ainda que singela. Antes de deitar, o pai
lia um trecho da Bíblia e fazia um breve comentário
a partir do dia a dia, na sua simplicidade.
Assim Noêmia cresceu. Sentia-se amada pela
família e, principalmente, por Deus. Ela colocava
o seu presente e futuro nas mãos de Deus.
Cada sonho era contado em oração ao Senhor,
solicitando sua vontade.
Seu maior desejo era encontrar um esposo
que igualmente amasse a Deus, formando uma
família cristã. Noêmia conheceu Eli num retiro
de jovens. Mesmo jovens, o amor foi amadurecendo
e resultou em casamento, ato consagrado a
Deus, com bênção em culto. Viviam do pouco que tinham. Noêmia
cuidava da casa. Eli trabalhava como auxiliar
numa marcenaria. O casal foi abençoado com
dois filhos. Eli preocupava-se muito com seus
meninos. Queria que tivessem mais possibilidade
de estudo e formação profissional que ele
mesmo tivera. A verdade é que não faltava
nada, mas, como progredir? A crise e a oportunidade
vieram juntas.
Naquele ano a seca foi terrível. A produção
agrícola caiu, o dinheiro faltou, a marcenaria
fechou, Eli foi demitido. Era um bom profissional.
Já podia trabalhar por conta, pois tinha suas
próprias ferramentas. Mas, não havia emprego.
Após muito conversarem e orarem, Eli e Noêmia
tomaram uma decisão: Vamos partir. Vamos tentar
a vida noutra cidade. O destino era o Distrito
Federal. Lá haveria trabalho, muita construção,
muita reforma. Bons profissionais têm seu
espaço. Noêmia poderia trabalhar. Os filhos
poderiam estudar e até, quem sabe, seguir
a profissão do pai. Colocaram a decisão diante
dos familiares. Alguns gostaram, outros odiaram,
mas não podiam impedir. Era uma necessidade.
A comunidade de fé reuniu-se em culto e orou,
abençoando a família que partia, aconselhando-o
a não abandonar a fé. Insistiam: Orem. Procurem
conselho na Palavra. Vivam em comunhão com
outros irmãos. Testemunhem sua fé. Assim,
bem orientados e alertados partiram.
No início foi tudo muito difícil. A cidade
era grande, boas oportunidades, mas também
muitos perigos. Era muito fácil esquecer-se
de Deus, colocando “valores deste mundo” em
seu lugar. Logo notaram que as pessoas preocupavam-se
muito com a aparência exterior, o “status”
e pouco com o coração. E, como diz o ditado:
As aparências enganam.
Nesse novo mundo, o novo deus proposto era
o “dinheiro”. Tudo girava em torno dele. Alguns
apelavam à falsidade, outros à violência.
Todavia, Eli e Noêmia se mantinham fiéis.
Passaram por diversas comunidades de fé. Descobriram
que algumas se preocupavam demasiadamente
com o rito, outras com o dinheiro dos fiéis,
outras iludiam com falsas promessas e assim
por diante.
Eli e Noêmia, caminhando ao lado do Senhor,
progrediam. Eli prestava serviço terceirizado
para uma construtora. Noêmia tornou-se cozinheira
num hotel. Os meninos cresciam. Tinham muita
capacidade para aprender. Suas notas eram
excelentes. Ajudavam o pai fora do período
de estudo. Financeiramente, a família passava
muito bem. Vivia confortavelmente. As chances
de seguir o rumo do mundo e se esquecerem
de Deus era grande. Mas, não era isso o que
acontecia. Todo dia pela manhã, uniam suas
mãos em oração após o café e diziam: Obrigado,
Senhor, por tudo o que recebemos. Queremos
te servir com nossos dons e bens.
Diz o ditado popular que: Após a tempestade
vem a bonança. Mas, o inverso também é verdade.
Depois da bonança, mais cedo ou mais tarde
vem a tempestade. Eli teve um mal estar súbito,
foi levado ao hospital, mas não resistiu,
faleceu de ataque cardíaco. No início, quando
soube da notícia, Noêmia se revoltou contra
Deus: Por quê, Senhor? Mas, não demorou, lembrou
e afirmou convictamente, nas palavras de Jó
(1.21): O Senhor o deu. O Senhor o tomou.
Bendito seja o nome do Senhor! No sepultamento,
agradeceu a Deus pelos bons anos de convívio,
pela família formada, pelo conforto da Palavra.
A vida continuava. Noêmia conversa com seus
meninos, agora homens feitos. Como vamos tocar
a vida adiante? Os filhos decidiram assumir
o comando e tocar a microempresa do pai. Havia
muito serviço contratado. Eles conheciam os
fregueses e sabiam do ofício. Os filhos não
negavam ao pai. Eram excelentes profissionais.
De repente, a novidade. De súbito, eles se
apaixonaram. As moças eram colegas de faculdade
e primas entre si. Contaram a novidade para
a mãe, pedindo o consentimento para o namoro.
Noêmia mostrou-se muito preocupada, pois as
meninas foram criadas sem igreja, sem conhecer
a Deus. Mas, por outro lado, tinham uma virtude.
Eram humildes e não rejeitavam aprender a
viver na fé.
Noêmia ficou muito feliz com o casamento.
Os jovens casais vieram morar temporariamente
com Noêmia, pois não queriam que ela ficasse
sozinha. Ela orava pelos casais. Intercedia
a Deus para houvesse compreensão e crescimento
mútuo. Havia muito amor e respeito naquela
casa.
Todavia, continuava valendo o ditado: Após
a tempestade vem a bonança. Depois da bonança,
mais cedo ou mais tarde vem a tempestade.
Certo domingo, após uma partida de futebol,
no retorno para casa, a violência no trânsito,
colheu novas vítimas, os filhos Noêmia. A
tristeza tomou conta do lar. Três mulheres
chorando sobre dois caixões. Novamente a raiva,
sentimento inicial, foi sendo dominado pela
Palavra de Deus. “Todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28).
Vivemos num mundo cruel. Doenças, acidentes
e violência colhem suas vítimas entre crentes
e descrentes. Ninguém é melhor do que ninguém,
nem é merecedor. Somos vítimas. Porque Deus
não intervém? Quais são seus planos? Algumas
vezes, tempos depois surge uma resposta. Outras
perguntas carregamos até o fim da vida.
De repente, eis três viúvas sentadas na sala.
O que fazer? Como será nosso futuro? A matriarca
toma uma decisão resoluta: Voltarei para minha
terra natal! Voltarei para o meu povo. Voltarei
para minha comunidade de origem! Noêmia olha
para suas “jovens” noras, liberando-as: Voltem
para seus pais. Encontrem novos companheiros.
Refaçam suas vidas. Esqueçam-se de mim! Ocorre
uma breve discussão, onde as jovens viúvas
afirmam categoricamente: Não! Queremos continuar
contigo. Se necessário, viajaremos juntas.
Noêmia fala, então, da mudança, do risco
de uma nova terra, novos costumes, distância
dos pais e assim por diante. As meninas se
dividem. Uma decide voltar à casa paterna,
reiniciar sua vida. Mas, a outra, chamada
Rute, toma uma decisão radical. Ela diz: Noêmia!
“Onde você for, eu irei. Pois o teu povo é
o meu povo. O teu Deus é o meu Deus” (1.16).
Rute reconheceu que o maior presente que
teve na vida foi alcançado através de seu
casamento com o filho de Noêmia e não queria
perder isso: Ela conheceu a Deus através do
casamento, através do exemplo de sua sogra
Noêmia. Ela não queria deixar para trás essa
caminhada de fé ora iniciada. E, assim Noêmia
e Rute voltam para o sertão.
Essa história foi adaptada do original escrito
no livro de Rute, capítulo 1. Desafio a comunidade
a ler tal história no original, vendo como
ela prossegue nos capítulos seguintes, com
novos momentos de crise, mas também de recompensa.
Como último detalhe, relembro que Rute, mulher
estrangeira, que assumiu sua fé, entrou na
história do Povo de Israel e passou a fazer
parte inclusive da árvore genealógica de Jesus.
Não esqueça jamais, por maiores que sejam
as dores, por menos que a gente compreenda
as situações que nos cercam, Deus está no
controle de toda e qualquer situação. Amém!
Euclécio Schieck